segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Polícia investiga esquema de fraude contra a saúde em SP

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A polícia de São Paulo investiga o envolvimento de funcionários do setor farmacêutico em uma fraude milionária para lesar os cofres públicos. Segundo a polícia, os golpistas usam laudos falsos e entram com ações na Justiça para que o Estado seja obrigado a comprar medicamentos desnecessários. Os remédios custam caro, estão fora da lista do Sistema Único de Saúde (SUS), e eram receitados para pessoas que nem estavam doentes.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo

Dalton Pereira é representante comercial da Mantecorp, um dos maiores laboratórios farmacêuticos do país. Fábio Marti é gerente da empresa no interior de São Paulo. Durante nove meses, a polícia acompanhou com autorização da Justiça os negócios que eles faziam. Em um telefonema, eles falam sobre o médico Paulo César Ramos, dermatologista na cidade de Marília.

- Hoje ele vale para a Mantecorp aproximadamente R$ 8 milhões ao ano e não deve ser tratado como qualquer um.

Imagens foram gravadas pela polícia no dia 29 de julho. Dalton e Fábio visitam a clínica do dermatologista, que estava em reforma. Segundo a investigação, foram eles que pagaram a obra. Por telefone, o médico se mostrava satisfeito. Veja, em itálico, o que diz a gravação do telefonema obtida pela polícia:

- Essa semana já os pedreiros acabam de pintar. Vai colocar vidro.

A reforma, diz a polícia, foi só uma das propinas recebidas pelo dermatologista nos últimos dois anos.

- O Paulo Ramos, a gente deu um jeitinho. Aqueles dez pau (sic) lá.

Segundo a investigação, os R$ 10 mil eram para que o dermatologista receitasse um medicamento para psoríase, uma doença inflamatória da pele bastante comum.

"O número de prescrições dele assusta. É o campeão sem sombra de dúvidas da prescrição desses medicamentos", afirmou o delegado Fábio Pinha Alonso.

Só que o escândalo era maior. No começo do mês, a policia prendeu o médico, os dois funcionários da empresa e mais seis pessoas, entre elas, dois representantes de duas multinacionais do setor farmacêutico: o laboratório Merck Serono e o Wyeth. As investigações revelam que os funcionários dessas outras empresas também pagaram propina ao dermatologista.

- A Serono ainda está conseguindo me pagar os retornos. 50 real que era retorno.

Esses medicamentos são caríssimos e também não são vendidos em farmácia. Por isso, a maioria das pessoas não tem acesso. Para se ter uma idéia, uma dose do remédio chega a custar até R$ 6 mil.

Segundo a polícia, pelo menos R$ 1 milhão saíram dos cofres públicos, em uma fraude com a participação dos médicos e dos representantes dos laboratórios.

“Estão roubando o dinheiro da população, o dinheiro da saúde, que poderia construir hospitais”, disse o secretário de saúde de São Paulo, Luiz Roberto Barradas.

Esse esquema ilegal começava em uma ONG, em Marília, a 435 km de São Paulo, a Associação dos Portadores de Psoríase e Vitiligo, outra doença de pele. Pessoas que procuravam a ONG eram encaminhadas para o dermatologista Paulo Ramos.

Segundo a polícia, Paulo fazia laudos falsos para justificar o tratamento com os remédios vendidos pelos representantes das três empresas.

Como em São Paulo eles não constam da lista dos medicamentos distribuídos de graça pelo SUS, os advogados da ONG entravam com ações na Justiça.

"Os advogados obtinham liminares e o Estado era forçado em razão dessa decisão judicial a adquirir o remédio e fornecer para aquele paciente", disse Fábio Pinha Alonso.

O médico Paulo César Ramos era sempre recompensado. Ele ganhou, por exemplo, passagem e hospedagem para participar de um congresso de dermatologia em Fortaleza, entre os dias 6 e 10 de setembro. O representante da Merck-Serono concordou em pagar passagem até para a mulher do dermatologista.

- A Márcia, sua esposa, conseguimos uma passagem para ela.

Funcionários da Mantecorp também queriam bancar a viagem do médico Paulo Ramos para o congresso. Mas o dermatologista teria que arcar com parte das despesas, o que deixou o representante comercial Dalton Pereira indignado. Ele não queria que o médico tirasse um centavo do bolso.

- É crucial que ele seja tratado de forma diferenciada. Hoje ele vale para a Mantecorp aproximadamente R$ 8 milhões ao ano e não deve ser tratado como qualquer um.

O dermatologista só não viajou porque tinha sido preso. Atualmente, ele e os outros acusados aguardam julgamento em liberdade. A reportagem do Fantástico foi à clinica do médico, agora reformada, segundo a investigação, com dinheiro de propina. Paulo César Ramos não quis dar entrevista, mas a equipe gravou uma conversa rápida em que o médico se diz enganado.

"Entrei em uma fria dessa aí, na boa intenção", declarou.

O Fantástico também procurou os outros envolvidos. O único que atendeu, por telefone, foi Fábio Marti, gerente da Mantecorp.

- Não tenho o que falar, amigo.
- Mas o senhor nega o envolvimento?
- Com certeza.


Em nota, a Mantecorp alega que sempre foi pautada pelo respeito às determinações legais e que não aceita comportamentos que estejam em desacordo com a legislação em vigor. Parte dos medicamentos comprados com dinheiro público estava na Associação dos Portadores de Psoríase e Vitiligo sem os cuidados necessários e teve que ser inutilizada.

Muitos pacientes vinham tomando os remédios dos três laboratórios, mesmo sem ter a doença. Pelo menos três sofreram problemas graves de saúde por causa da medicação indevida.

"Eu sou uma das vítimas, tomei a vacina errada", disse o agricultor Jacinto Von Stein.

Seu Jacinto procurou o médico por causa de manchas na pele. Agora um diagnóstico revelou que as manchas são por causa da causa da exposição ao sol e não devido à psoríase. Mesmo assim, o agricultor recebeu 24 doses do remédio produzido pelo laboratório Merck Serono, por indicação de Paulo César Ramos.

"Deu problema no rim, deu problema de fígado. Falei: ‘Poxa, eu estou com tudo agora’", lamentou.

Em nota, a Merck Serono informa que respeita as leis e que está disposta a colaborar com a Justiça para o esclarecimento dos fatos. Também em nota, o laboratório Wyeth diz que não reconhece nenhuma das alegações envolvendo o nome da empresa e seus produtos.

Para a polícia, o caso não está encerrado. O prejuízo aos cofres públicos de São Paulo pode ter passado dos R$ 60 milhões.

"Existem outros medicamentos, outras ONGs que nós continuamos investigando para poder detectar e está impedindo que isso permaneça", disse o secretário de saúde de São Paulo, Luiz Roberto Barradas.





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